quinta-feira, 23 de abril de 2009

Antonioni: Contra o Neo- Realismo


É cada vez mais difícil falar de cinema no espaço mediático em que vivemos. Hoje, por exemplo, inadvertidamente, ouvi uma notícia numa rádio (RFM) em que, a propósito da morte de Michelangelo Antonioni, se evocava a sua condição de "referência neo-realista"...
Porque é que é difícil falar? Porque domina este saber-sem-saber, altivo e juvenil, que proclama as mais terríveis banalidades ou os maiores equívocos com a serenidade de quem enuncia uma lei universal. De facto, se algo permite definir os tempos fundadores da obra de Antonioni é o paciente, elaborado e, à sua maneira, militante empenho em superar a herança neo-realista, nomeadamente substituindo a "pureza" dos heróis positivos pelas sombras de novas personagens, dilaceradas pela sociedade dos anos 50/60 - será importante ver ou rever, por exemplo, esse filme fascinante que é O Grito (1957) para compreender tal dinâmica criativa (e também a sua política simbólica).
A "notícia" citada concluía a referência ao "neo-realismo" de Antonioni com a evocação de Profissão: Repórter (1975), filme cujo incomensurável alheamento de qualquer dinâmica neo-realista vai ao ponto de discutir, ponto por ponto, a própria possibilidade de realismo na representação dos dramas do homem contemporâneo. Profissão: Repórter é mesmo um espantoso ensaio sobre a nova e inquietante coexistência dos rostos e das máscaras, da verdade e do simulacro, num mundo em que a palavra "eu" parece estar sujeita a uma metódica desvalorização simbólica. Aproximar Profissão: Repórter de qualquer referência neo-realista é o mesmo que pretender explicar uma abstracção de Mondrian a partir dos códigos de composição dos ícones medievais...
PS - Pouco depois das 20h30, numa peça do Telejornal da RTP1, Rui Lagartinho começa por lembrar que Fellini e Antonioni foram decisivos para "virar a página" do neo-realismo. Simples e directo, felizmente. Nem tudo está perdido... Fonte:
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Um comentário:

  1. Oi,

    Concordo plenamente com você!
    Não consigo entender, como alguém pode sequer aproximar “O Passageiro: Profissão Repórter” do Movimento Neo-Realista.
    Ora, também leio que, por causa da Trilogia da Incomunicabilidade (A Aventura, A Noite, O Ecplise) em relação a famosa Trilogia do Silêncio de Ingmar Bergman, muitos dizem ser Antonioni o Bergman italiano, que absurdo!!
    Bergman se pautava sobre a subjetividade na maioria de sua obra, enquanto Antonioni era pura objetividade.
    Não me atrevo a tomar partido nem de um nem de outro (e nem é preciso, seria estupidez), mas tenho consciência que a arte dos dois somadas, ultrapassam, e muito, dezenas e dezenas de diretores, que sequer sabem o que é, realmente, arte no cinema.
    Também, e concluo a minha metida de colher enferrujada nesta história, o cinema de Antonioni não tem nada a ver com os problemas sociais da época (Neo-Realismo), mas, sim, um cinema pautado no indivíduo, com grande destaque ao vazio existencial das pessoas, não como as dificuldades de relacionamentos visto em Bergman, mas a própria incomunicabilidade dos personagens, gerando imensos vazios e um silêncio aterrador.
    É verdade que Antonioni “nasceu” em berço neo-realista, mas logo rompeu (assim como Federico Fellini) o cordão umbilical e “criou” o seu próprio cinema, hoje, acertadamente chamado de Cinema Moderno Italiano.
    E principalmente “Blow Up” e “Profissão Repórter”, caracterizam a sua maturidade profissional, não deixando dúvidas de que, a sua obra, é única e original.
    E, especialmente “Profissão Repórter”, sintetiza a linguagem deste cinema moderno. Um cinema em que seu maior propagador não tinha medo nem do silêncio e nem do vazio (imagine uma cena com 10 minutos de puro silêncio!), lacunas estas que fazem parte das experiências dos indivíduos inseridos neste mundo, mas que, no entanto, o cinema (nem digo o comercial) era (ou ainda é!!) totalmente indiferente.
    Antonioni, logo no início de sua carreira, deixou a bicicleta de lado (alusão ao clássico neo-realista) e passou a perscrutar o que havia no espírito e no coração do homem de quem roubaram a bicicleta!

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