segunda-feira, 23 de março de 2009

Após Bergman e Antonioni onde fica o cinema europeu? - João Antunes

Parecem ter combinado um encontro, num além espiritual cuja existência tanto questionaram, cada qual a seu modo. No passado dia 30 de Julho, com apenas 14 horas de intervalo, desapareciam os últimos grandes autores do cinema europeu clássico, Ingmar Bergman, 89 anos, e Michelangelo Antonioni, 94.
O desaparecimento destas duas "ilhas" do cinema de autor é no entanto perfeitamente lógico, no contexto do desenvolvimento da história do cinema. Arte com pouco mais de um século, demorou toda a primeira década da sua existência a afirmar-se como espectáculo com a legitimidade do teatro ou das outras artes de representação que o precederam. Griffith, considerado o "pai do cinema", desenhou as regras da gramática cinematográfica.
Nas décadas que se lhe seguiram, enquanto o cinema americano se dedicava a criar um tipo de espectáculo capaz de conquistar o mundo, conquistando também alguns dos principais actores e realizadores de todo o mundo, o cinema europeu gerava alguns daqueles autores capazes de ombrear com os maiores compositores, pintores ou escritores de sempre chamavam-se, entre outros, Renoir e Eisenstein, Lang e Murnau, Buñuel e Dreyer, Rossellini e Visconti, Fellini e Bresson. Estavam entre nós até alguns dias Bergman e Antonioni.

A excepção de Oliveira

Dos grandes autores ainda vivos, daqueles que marcarão a história do cinema, hoje como daqui a um século, poder-se-ia dizer que resta Godard (e outros da geração da Nouvelle Vague Resnais, Chabrol ou Rivette). Mas, ironicamente, Godard e os seus pares, tendo sido eles a estabelecer a "teoria dos autores", título de um dos livros basilares da bibliografia cinematográfica, também foram eles os primeiros a questionar as regras do cinema clássico.
Foi nessa década de 50 que nasceu realmente o cinema chamado moderno. De todos os grandes que começaram a filmar antes, subsistiam Bergman e Antonioni. A excepção será Manoel de Oliveira. Nascido em 1908 e começando a filmar em 1929, apenas na viragem para os anos 80 do século XX conseguiu produzir uma obra regular. Mas, apesar da inegável importância no quadro da cultura portuguesa e do reconhecimento por parte de alguns sectores do meio cinematográfico internacional, faltar-lhe-á algum estatuto para se cotar ao nível de Bergman e Antonioni. O Oscar de carreira no ano do centenário poderia contradizer esta afirmação, que se arrisca a ferir algumas sensibilidades.
Mas será também injusto negar a existência de autores europeus da modernidade cinematográfica. Pedro Almodóvar criou um estilo próprio e ajudou a desenvolver a indústria cinematográfica no país vizinho; Nanni Moretti é sempre fiel ao seu cinema de intimidade social; Lars von Trier praticamente criou uma escola à sua volta; Jean-Marie Straub, que também perdeu metade do seu método com a morte recente de Danielle Huillet, também "nasceu" para o cinema na era do corte com a escola clássica; e o nosso Pedro Costa é cada vez mais olhado pela comunidade internacional como um dos olhares mais criativos de hoje.

Autores cristalizados

Mas, em paralelo, Syberberg não filma há mais de uma década, Wenders também parece ter desistido da prática cinematográfica, Greenaway tanto apregoou a "morte do cinema" que os seus últimos filmes parecem ser perfeitos manifestos dessa afirmação. Outros, como Bela Tarr ou Sokurov, estão cada vez mais presos ao seu próprio estilo que os seus filmes pecam pelo vazio emocional. E não podemos esquecer Bergman e Antonioni, apesar de radicalmente coerentes e de não cederem ao cinema enquanto espectáculo "fácil", nunca tiveram grandes problemas de público. A estreia de um novo filme era sempre um acontecimento cultural.
Mas não dramatizemos. O cinema vive hoje outra fase de viragem. A revolução do digital vai implicar uma nova linguagem, adaptada ao meio. Muitos novos cineastas reclamam legitimamente, com os seus filmes, o estatuto de novos autores. Mas só o futuro dirá se algum deles irá ficar para a história do desenvolvimento da linguagem cinematográfica ou se farão parte de qualquer enciclopédia do cinema mundial como Bergman e Antonioni, cada qual com direito a um capítulo próprio, aberto de cada vez que algum dos seus filmes for outra vez visto ou revisto.
O DVD, como nunca fora o VHS, apresenta-se cada vez mais como um espaço privilegiado para os mais jovens descobrirem os clássicos - e os cinéfilos de há muito constituírem ao seu gosto as suas videotecas particulares. Felizmente, há muito para ver e guardar de Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni, sobretudo do primeiro. Na realidade, são nada menos do que seis as caixas dedicadas ao realizador sueco, com um total de duas dezenas e meia de títulos, desde as primeiras obras até praticamente ao fim da carreira, incluindo os maiores clássicos, como "O sétimo selo", "A máscara" ou "Lágrimas e suspiros", além de outros títulos vendidos isoladamente, como "A flauta mágica", "Fanny e Alexandre" e "Saraband". De Michelangelo Antonioni, embora a capacidade de escolha seja muito menor, o nosso mercado tem nesta altura disponíveis três dos seus melhores filmes "O eclipse", "Blow-up - A história de um fotógrafo" e "Profissão: repórter". Fonte:

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