terça-feira, 7 de abril de 2009

Download "Mistérios e Paixões" - David Cronenberg


Sinopse:

Nova York, 1953. Bill Lee (Peter Weller) quer ser escritor, mas ele extermina insetos para pagar suas contas. Bill está tendo problemas no trabalho, correndo o risco inclusive de perder o emprego, pois freqüentemente esgota seu estoque de inseticida. Porém, a verdade é que Joan (Judy Davis), sua esposa, está viciada no "barato" que este pó lhe causa. Quando Bill, estimulado pela mulher, experimenta esta substância ele entra em um processo interminável de "viagens", nas quais máquinas de escrever se transformam em enormes insetos falantes.

Crítica:

O que você acharia mais interessante: Franz Kafka escrever um livro sobre Salvador Dali e Pedro Almodóvar, Dali pintar um quadro retratando Almodóvar e Kafka, ou Almodóvar rodar um filme sobre Kafka e Dali? Mistérios e Paixões é tudo isso e não é nada disso ao mesmo tempo. Na verdade, a obra que parece dirigida por Almodóvar sobre um roteiro de Kafka com fotografia de Dali, é uma adaptação fiel do desvairado O Almoço Nu, de William S. Burroughs, beatnik por excelência e escritor por generosidade. Quem peitou a responsabilidade de adaptar semelhante ousadia para o cinema foi o não menos genial David Cronenberg, o papa canadense que assinou algumas das pérolas da ficção científica recente e do moderno cinema fantástico.
O filme é Almodóvar porque é kitsch. É Dali porque é surrealismo nato. E é Kafka porque o enredo com os insetos remete quase que diretamente a A Metamorfose. Entrementes, o que chama a atenção no filme é a quantidade de citações no decorrer da história, que o diretor praticamente faz saltar aos olhos do espectador mais atento. Divirta-se tentando colher situações ou frases de efeito já usadas antes por outros cineastas em contextos diferentes deste roteiro de lisergia corrosiva. A referência mais óbvia consta da ambientação. A trilha sonora jazzística, a indumentária e os cenários muitas vezes remetem aos anos 30; a atmosfera de mistério e exotismo reforça ainda mais a impressão de distanciamento da atualidade, enquanto o uso de drogas, administradas a granel, se encarrega de ser o elemento responsável pela certeza de distanciamento da realidade. Conhecendo a vida de Burroughs, intui-se que o roteiro seja autoral, baseado nas experiências do autor com drogas alucinógenas. Realmente, o filme é recheado de situações inverossímeis e surreais, fruto de uma mente fértil, turbinada por "whatever that should eat brains". O personagem principal é, de fato, um alter ego de Mr. Burroughs, o que, em uma hipótese, pode ter feito Cronenberg optar por contemporaneizar à história a época de juventude do beatnik, em um simulacro de sincronia temporal, talvez visando maior veracidade ou talvez apenas como uma homenagem ao escritor, nunca saberemos ao certo. Até mesmo o nome da empresa/serviço de inteligência Interzone, Inc. é usado como ironia intertextual, como se tudo aquilo a que assistimos fosse passado em uma zona intermediária, uma realidade paralela da vida do autor. Ou, melhor, uma trip. Uma weird trip.
A trama é densa, complexa e rica em detalhamento e reviravoltas. Basicamente, trata de um escritor que trabalha como exterminador de insetos e que, junto com a mulher, torna-se viciado em inseticida (!). Detido pela polícia, ele é atormentado por delírios de insetos que o incumbem de matar sua esposa (!!), o que ele acaba por fazer "acidentalmente". Foragido, suas alucinações o levam agora a um lugar chamado Interzone, onde, munido de uma máquina de escrever, ele, através de relatórios, narra a seus "superiores" (os insetos) a vida dos nativos e de outros habitantes do lugar, geralmente outros escritores obcecados por suas máquinas de escrever, por drogas pesadas e por homossexualismo. Estranho? Vamos melhorar ainda mais este quadro. Cada escritor é um agente disfarçado, infiltrado na comunidade com uma missão equivalente à de Bill, o nosso protagonista: descobrir o gerenciador local no tráfico de lacraias pretas brasileiras gigantes (!!!), a famosa carne preta, matéria-prima de uma droga sintetizada na cidade, de efeito superior ao das demais. Os contatos de cada agente são suas próprias máquinas de escrever, que se transformam em insetos mutantes que mais parecem crustáceos e que ditam "roteiros", com modos de agir a serem datilografados e seguidos à risca pelos agentes.
Drogadicção, homossexualismo, alucinofilia, humor nevrálgico e um roteiro inconseqüente levado às últimas conseqüências. É esta a indigesta alquimia que fez do filme um retumbante fracasso. Pouco convencional e, talvez, a aposta mais arriscada de Cronenberg, Mistérios e Paixões é seguramente o filme mais difícil da carreira do diretor. De qualquer forma, verdade seja dita: trata-se de um filme que não recebeu a atenção merecida e nem a paciência que a sua degustação plena exige. Contudo, é inequívoco que o diretor, com vocação para a polêmica, incorreu em alguns erros; pequenas falhas que, se contornadas, dariam outras nuances à história. Em algumas passagens existe uma clara denúncia sobre a possibilidade de tudo ser uma grande "viagem", entretanto, a forma não-linear como isto é passado no início do filme é muito mais efetiva, dando a impressão de o espectador estar mesmo sob o efeito de alguma droga. Porém, este recurso não perdura, perdendo a força à medida que o filme ganha em inteligibilidade. Isto fica nítido quando amigos de Bill encontram-no dormindo em um parque, já livre do efeito das drogas: é a declaração por extenso de Cronenberg explicando que o enredo não passava de uma peça que o inconsciente aditivado do personagem lhe estava pregando todo o tempo. Esta espécie de confissão do diretor acaba por tirar o brilho de um recurso que deveria se sustentar, no mínimo, até o final do filme. Quando o cineasta delata a realidade, ele nada mais faz do que expor aos holofotes do público menos atento uma entrelinha que merecia ser percebida ao invés de denunciada.
Pra (finalmente) acabar, eu jurei pra mim mesmo que não iria tocar no assunto, mas é muito mais forte que eu. Afinal, o que cargas d'água leva alguém a traduzir The Naked Lunch (ao pé da letra, O Almoço Nu, título do filme em inglês, fiel ao do romance homônimo) como Mistérios e Paixões? Se alguém tiver a resposta, por favor, aplaque a curiosidade do seu combalido e incansável resenhista.
Indicado pra quem achava que Quero ser John Malkovitch era o máximo em estranheza e bizarrice. Morda-se de inveja, Spike Jonze!

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